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Cartomante Sincera

Ontem estive em uma reunião social e uma amiga, mãe parida recente, coisa de um ano, estava me dizendo da sua preocupação de não engordar. Não engordar, dizia ela pra mim: “se não tomar cuidado, vai engordar sim”. E uma outra amiga, que está chegando aos cinquenta, e com ressentimento me falava de como tem sido vista como uma mulher mais velha, e das pequenas regulações e insultos no dia a dia, sobre o seu corpo, uma mulher grande, de ancas e ombros largos… Fiquei tocada por aquelas expressões de preocupação.  Um ano atrás um amigo meu, homem, gay, dizia, sobre uma outra mulher recém parida - graças a Deus minha casa anda sempre cheia de mães com bebês - que ela deveria tomar cuidado para não engordar, se não, perderia o marido. 
Desde criança alguém regula o meu corpo. Muitas pessoas, na verdade, o tempo todo. Nem foi só a minha mãe, apesar de minha mãe ter sido uma reguladora atroz, e também cruel. Mas todo o universo circundante. Recentemente meu filho se preocupava, um coleguinha de escola disse para ele que a mãe dele era gorda, e ele disse pra mim que, portanto, eu deveria emagrecer. Meu filho estava preocupado com a forma como estava sendo vista a mãe dele, e, pior, ele mesmo, filho de uma mãe gorda. Tentei explicar para ele que as pessoas não devem regular umas os corpos das outras, que o pai do tal coleguinha também é gordo, mas ninguém se importa. Na verdade todo mundo se importa mesmo é se a mulher está gorda, ou engorda, ou vai engordar, ou emagreceu. O elogio ao emagrecimento é o mesmo lado dessa moeda.
 Fiquei espantada com a naturalidade de minha amiga, em me dizer que estava preocupada de engordar, porque naturalmente engordar é ruim, e de dizer isso para uma pessoa gorda, com muita tranquilidade. Eu nunca acharia estranho ouvir isso, um leve desconforto que não identificaria que vem dali, mas ontem isso me provocou, e foi bom.
Linda e gorda, sob os cuidados da Sara Nina e o olhar da Lu Trento
 
Porque achamos natural o fato de querer emagrecer. Tão natural quanto o fato de o gordo ter que ouvir calado que ele está fora do jeito certo de ser, ou de a mulher ter que ouvir calada sobre qualquer observação em relação ao seu corpo, recomendações mil. Se for mãe, recomendações aos milhares. Talvez por sempre me chatear demais com essas observações todas eu passei a neutralizar, simplesmente não ouvia, superei a baixa autoestima fazendo ouvidos mocos, e deu certo. Deu certo também porque conheci homens que gostam de fazer sexo com mulheres gordas, o que a maioria deles não assume publicamente, nem o gosto, nem a gorda. E o desejo sexual, para mim, era fundamental para a auto-estima. E sim, já deixaram de me assumir como uma relação por isso.
 
Mas hoje eu vejo, e talvez os cabelos brancos estejam me mostrando isso, como o tempo todo, sem parar, mesmo eu fazendo ouvidos de mercador, essa vigilância me perseguiu. Fui casada com um homem maravilhoso, hoje grande amigo, por 11 anos, e vi nosso relacionamento ter sido questionado diversas vezes, de forma direta ou não, por ter esse layout - mulher gorda - homem magro.
 
Tenho uma amiga - magra - que vive fazendo jejuns. Não se acha magra. Não se acha alguém com problemas em relação à autoimagem. E nós somos todos, como ela! Isso é que é o espantoso! Não o fato de ela ser assim. Nós mulheres vivemos o tempo todo com problemas com relação ao peso, e negando esses problemas, e não importa que peso temos. 
 
Quando dirigi o espetáculo “Meninas, Corram!” sobre anorexia e bulimia, com a maravilhosa atriz Alda Maria Abreu, uma colega professora me disse que o espetáculo não a tocava, porque ela sempre teve uma relação com a comida que era uma relação sem problemas - como ela tinha muitos problemas de estômago, a comida era só um remédio para ela, não envolvia a questão do prazer… Isso era não ter problemas!
 
E ontem eu me vi cansada. O ponto onde eu chego é o ponto em que o corpo, e sobretudo, o peso, é um problema, para todas. Não importa se gorda ou magra, o peso é um peso. E me peguei cansada do desconforto de estar em um lugar invisível de erro permanente, e pior, em um lugar onde meu corpo é um campo aberto para a ingerência alheia. Em pensamentos, olhares, sugestões, pressuposições. E me ocorreu o quanto nós, mulheres, somos responsáveis por tudo isso, quanto, ao me sentir desconfortável com o meu corpo, eu regulo os corpos das mulheres próximas todo o tempo, buscando o parâmetro do que é aceitável e do que não é e regulando isso com os critérios do mercado afetivo e sexual vigente em um país latino putamente chauvinista. O quanto eu já me justifiquei para meus pais, meu ex, meu atual, desconhecidos e desconhecidas, vendedoras em lojas, assistentes de médico, feirantes, seja lá o desconhecido que for, sobre a condição em que o meu corpo está no momento, muitas vezes essa justificativa não tendo sido nem requerida… Até mesmo e especialmente quando emagrecia. Até porque nunca foi o suficiente. Mesmo quando estava com o peso no ideal do tal IMC sempre foi requerido mais e mais empenho. E volto ao ponto: porque a questão não é ser gorda ou ser magra, a questão é a vigilância, a vigilância alheia e a auto vigilância, constante e ininterrupta. Não importa o peso que eu ou qualquer outra mulher tenha, pelo menos neste país, isso é uma fonte constante de preocupação e estresse. E isso nos parece muito normal que seja assim.  E isso não é assim para a maioria dos homens, talvez para uma parte deles, mas, com certeza, é uma fonte de estresse para TODAS as mulheres.
 
E para fechar eu mando essa imagem MARAVILHOSA, do Museu Jardim do Tarot e sua Imperatriz, gordíssima e poderosésima, comme il faut. 

 
Escultura da Carta da Imperatriz, de Niki de Saint Phalle, no Jardim do Tarô, Sul da Toscana