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Vamos tirar o amor do centro da história?

Ontem pedi uma carta que acompanhasse esta terceira postagem sobre relacionamentos abusivos. Parece clichê, mas me saiu a carta número XV do tarô, a carta O Diabo. Mas qual a relação? Ingenuamente poderíamos achar que é a “maldade” do comportamento abusivo… Mas num olhar mais aprofundado, e apesar da previsibilidade, esta é, evidentemente, uma das cartas que melhor define o comportamento de uma certa espécie de abusador: Carismático, enigmático, altamente sexual. Pensemos em desejo, apego, pulsões, passionalidade, acorrentamento - e sobretudo, dualidade…. Cá estamos.

Se você é uma dessas pessoas que tem pesquisado relacionamentos abusivos, ou já passou por um, já deve saber que é típico do agressor que ele seja um exemplo de comportamento social, uma pessoa gentil com a família extensa e os amigos do casal, enfim, um cidadão acima da suspeita de abuso.

Existem crenças machistas, alicerçadas inclusive nos profissionais que trabalham prestando auxílio às mulheres, que reforçam e disfarçam a ambiguidade da situação, já que por trás de uma passionalidade encontramos um grande egoísmo e autocentramento, por trás “daquilo que reluz” encontra-se o aprisionamento, o apego e a dor.

A ambiguidade, a dualidade, a descrença do grupo social sobre o que está acontecendo, produzem na mulher abusada uma sensação de insanidade extremamente angustiante. Um profundo inferno pessoal. Ela se pergunta se aquilo é real, se não é criado pela sua mente, por ser "exigente" demais, "carente" demais, "desconfiada" e por aí vai. E é convencida disso, não apenas pelo parceiro, mas pelas pessoas com quem ela venha, porventura, a se abrir. 

Nessas conversas se constróem mitos em torno do comportamento do abusador, que justificam suas atitudes, e que reforçam e disfarçam essa dualidade. Acho interessante que pensemos sobre eles, e em quantos momentos os utilizamos para lidar com esse tipo de comportamento:

“Ele foi uma criança abusada.” 

“Sua parceira anterior o feriu.”

“Ele abusa aqueles a quem mais ama.”

“Ele segura muito seus sentimentos.”

“Ele tem uma personalidade agressiva.”

“Ele perde o controle.”

“Ele é muito bravo.”

“Ele tem problemas mentais.”

“Ele odeia mulheres.”

“Ele tem medo de intimidade e abandono.”

“Ele tem baixa auto-estima.”

“O seu chefe o trata mal.”

“Ele tem baixas habilidades em comunicação e resolução de conflitos.”

“Tem tantas mulheres abusivas quanto homens abusivos.”

“O seu abuso é tão ruim para ele quanto para a sua parceira.”

“Ele é uma vítima do racismo.”

“Ele abusa de álcool e de drogas.”

 

O primeiro tarô desenhado por Ciro Marchetti, The Gilded Tarot

Todas as justificativas ou desculpas, se baseiam em fatores emocionais - ou de falsa equivalência do comportamento feminino. O comportamento dos homens abusadores, como em geral os comportamentos masculinos destrutivos, são sempre justificados por respostas psicologizadas ou, mais do que isso, vistas pelo prisma do “amor”, dos “sentimentos”. 

Texto publicado inicalmente em 27 de junho de 2017