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Cartomancia e o atendimento em relacionamentos abusivos

A grande maioria dos atendimentos realizados por mim como cartomante, têm como motivação questões de relacionamento, sobretudo entre casais heterossexuais. Em segundo lugar aparecem as situações financeiras dificultosas, um negócio que não anda bem, outro em vias de ser fechado, um apartamento a ser vendido, dívidas, ou a situação de uma empresa que anda mal das pernas. Em terceiro lugar vêm questões outras de relacionamento, do consulente com seus filhos, pais, ou outros parentes que muitas vezes residem juntos, e por fim itens como mudança de vida, de cidade, novas oportunidades…  Mas sem dúvida que em primeiro lugar aparecem as questões de relacionamento.

Segundo Jodorowsky, no seu "O Caminho do Tarot", em relação à carta "O Namorado", pois, segundo ele, este é o nome original da carta, e não "Os Enamorados": "A humanidade inteira pode ser compreendida através desta carta. As relações entre os protagonistas são extremamente ambivalentes". 

As questões de relacionamento que chegam a mim como cartomante são trazidas quase cem por cento das vezes por mulheres heterossexuais. Mulheres de qualquer etnia, de todas as classes. Eu costumo dizer aos amigos psicólogos - alguns torcem o nariz - que um cliente, sentado em uma mesa de jogo, muitas vezes nos diz em quarenta minutos tudo o que ele ainda não disse para o terapeuta em seis meses, às vezes em alguns anos de terapia.

No início me assustava um pouco o número de vezes em que atendi mulheres que, pelos relatos, estavam em situações de abuso, físico ou emocional. Ao atender essas mulheres eu comecei a aprofundar meu olhar sobre o abuso. Creio que uma olhadora competente, tem que ter um repertório de vida razoável, vivências pessoais diversificadas, baixo nível de moralismo, e bom conhecimento da alma humana, isso amplia nossa visão e nos faz “acertamos” melhor o real significado que as cartas estão a nos passar... Pude também, ao longo desse processo, ir compreendendo algumas situações de abuso pelas quais eu mesma já havia passado...

 

 

Yoshi Yoshitani - Fairytale Tarot. Carta dos Enamorados - VI

O mistério da carta dos Enamorados acena por esse caminho. Essa é uma das cartas que fala do amor nos relacionamentos, mas que também fala das dúvidas, das rixas, dos caminhos afetivos a seguir, de escolhas, às vezes dolorosas, que devem ser feitas. Fico me perguntando, e esse será um tema para um outro post, porque os relacionamentos amorosos se tornam sempre “Questões”, muito mais para as mulheres do que para os homens?

Nesse caminho, um dos livros que me  parou nas mãos foi o “Why does he do that - Inside the minds of hungry and controlling men”, de Lundy Bancroft. A tradução aproximada do título seria “Porque ele faz isso? - Dentro da mente de homens raivosos e controladores”.

Das dezenas de relatos que eu escuto todos os dias, vê-se que o machismo, que leva o homem a naturalizar o exercício de supostos direitos seus inerentes, e vantajosos -  dados pela natureza ou a sociedade - é o detonador das situações de abuso e relações abusivas entre casais. Ao contrário do que pensa uma grande maioria, e o autor insiste neste ponto, o que faz com que o abuso aconteça não é a forma como um homem sente as coisas, mas a maneira como ele pensa sobre essas coisas.

 

Capa do livro "Porque ele age assim?" de L Buncroft

O autor é um homem cis, que atuou como conselheiro judicial nos Estados Unidos, em mais de dois mil casos de condenados por abuso contra suas companheiras, realizando acompanhamento psicológico e aconselhamento determinado pela justiça. Comecei a ler e traduzir ao mesmo tempo, resumindo, acreditando que esse conteúdo tem tudo a ver com a mesa da cartomante. Segue um trechinho, sobre as vozes que aparecem para a vítima de uma relação abusiva:

“A sua terapeuta (da mulher em situação de abuso) fala que ele tem reações fortes contra você porque ele lembra do pai, e que você o deixa bravo por causa da relação dele com a mãe, e que se vocês se trabalharem as coisas vão se encaixar. Um amigo alcólotra  em recuperação fala que ele é o polo ativo do vício, e que te deixa com medo por causa de todos os seus medos, que ele tem que frequentar o programa de recuperação dos doze passos. O irmão dele fala que sabe de tudo, que ele às vezes dá umas porradas no cara, mas que vocês tem que se acertar pelo bem das crianças, que não é para dar ouvido para fofocas, que a vida é só de vocês. E da mãe, da amiga, ou da professora do filho você escuta que tem que largar dele antes que seja tarde demais.

Todos essas pessoas estão falando do mesmo abusador, de diferentes pontos de vista.

Mas a mulher abusada sabe que, quando resolver terminar, ele vai colocar para fora seu lado mais intimidador. Ele vai pedir outra chance, ele vai ficar severamente “deprimido”, fazendo com que ela se sinta mal, a menos que ele esteja certo.”

Foi e tem sido uma leitura pesada, mas necessária. A partir de hoje inicio uma série de textos tendo como tema o abuso nos relacionamentos, e vou trazer alguns dos conceitos pensados por Bancroft, bem como pequenos trechos do livro, adaptações, resumos e sinopses de outras obras. Espero que a leitura seja útil a todxs vocês, tanto em suas vidas pessoais, como em seus atendimentos.

Mitakue Oyasin, Ahow! "Por todas as nossas relações!

Texto publicado inicialmente em 19 de junho de 2017