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Diferenças entre Tarot e "Baralho Cigano" (Petit Lenormand)

Uma coisa que sempre me perguntam é sobre a diferença entre Tarot e "Baralho Cigano" (Petit Lenormand).

Vou responder de acordo com o que tem sido minha prática, mais do que devido a meus estudos teóricos. O Tarot reflete muito fielmente o momento que a pessoa está vivendo, seus sentimentos , o grande movimento atual da vida e para onde ela tende a se dirigir, de acordo com aquilo que desejamos para nós e estamos hoje forjando, para que venha a acontecer. O Tarot tem também uma tradição muito forte ligada às artes visuais, já que muitos artistas desenharam tarôs e muitos tarologistas desenvolveram seus próprios desenhos para o jogo. Além da questão visual, se agregam a essa tradição os conhecimentos desenvolvidos pelas mais distintas ordens esotéricas, que levaram à criação também de muitas "mesas" diferentes. Ainda que você jogue um único Tarot, a tradição meio que se "cola" nas cartas, em um nível inconsciente estão todos ligados.

 

Para Alejandro Jodorowsky, a origem do Tarot se liga aos conhecedores das ordens esotéricas medievais e às trocas entre sábios cristãos, judeus e muçulmanos, que decidem desenhar lâminas para nelas fixarem seus conhecimentos alquímicos e espirituais, não de forma explícita. Muita especulação existe em torno do tema, mas tanto para esse autor, quanto para Neil Naiff, um grande conhecedor do mundo do esoterismo e dos autores de livros mais vendidos no Brasil, as especulações sobre uma origem do Tarot anterior à idade média (nascimento no Antigo Egito, etc...), são mesmo nada além de especulações.


O uso do Baralho Cigano, por sua vez, vem de um histórico um pouco diferente, e atende a outras demandas.  Ele surge de uma série de jogos lúdicos de cartas, que vão, aos poucos, a partir do século XIV surgindo na Europa,  e que pelas mãos de alguns esotéricos e, sobretudo, pelo uso de adivinhadores populares, vão sendo transformados em jogos oraculares. Consta que a famosíssima cartomante francesa do século XIX, Mlle. Lenormand, utilizava cartas de um jogo criado por um empresário alemão, Johann Kaspar Hechtel (1771-1799), um jogo de tabuleiro que começara a ser utilizado para adivinhação. O nome de Mlle. Lenormand foi acrescido mais tarde, no século XIX, a uma reedição desse jogo, devido à popularidade daquela grande vidente (que, curiosamente, atendeu por muitos e muitos anos nos fundos de uma livraria, não se sabe se de fachada...).


Penso que os ciganos sempre adaptaram jogos lúdicos à adivinhação, como fazem com os dados e com qualquer instrumento que adaptam para servir a esse uso. A espiritualidade cigana está muito ligada à diversão, às festas, ao que consideramos tradicionalmente "mundano". Nesse universo tudo são sinais, nas mais variadas formas da vida, manifestas a quem pretende ver. A forma simples e popular das imagens do "Jogo da Esperança" (era assim chamado o jogo editado por Johann Kaspar Hechte), e posteriormente do Petit Lenormand, eram muito convenientes ao uso pelos ciganos, por toda a Europa, e, depois, no Brasil.O Baralho Cigano, vou chamá-lo preferencialmente assim, atende às demandas de urgência, Às questões mais diretas e mais simples em uma vida humana. Preocupações, traições, problemas, mudanças, gravidez, transições, amigos, tudo de uma forma bem direta. Penso que um grande olhador do Baralho Cigano deve ser, antes de tudo, uma pessoa que conheça bem a vida, que a tenha vivido, e visto muitas coisas, relações e histórias. Esse será um grande jogador.


Se eu fosse estabelecer requisitos para um jogo e para outro eu diria que, para o Tarot, a condição maior é a da sensibilidade à alma humana, e para o Baralho Cigano, o conhecimento da vida, em todas as suas dinâmicas, ser uma pessoa bem vivida. Mas, nem um nem outro critério se bastam, porque para jogar Baralho Cigano também tens que ter sensibilidade, e conhecer a vida ajuda muito na leitura do Tarot. Por isso inevitavelmente, quanto mais velhos ficamos, a tendência é jogar melhor.


Outra coisa que me parece fundamental, ao leitor de cartas, é a isenção de moralismos. O consulente tem um radar excelente para sentir se o tarólogo ou cartomante é moralista, e até onde pode ir com ele em suas dúvidas, relatos e questionamentos. É fundamental que a pessoa tenha a liberdade de se abrir com quem vai jogar para ela, e que não tenha receio de perguntar qualquer coisa.

 


P.S: Eu não pretendi neste texto me estender sobre questões históricas, nem de um jogo, e nem do outro. Mas segue abaixo a indicação de uma boa leitura sobre a origem do Petit Lenormand, um texto excelente de uma referência fundamental no Brasil, o Alexsander Lepletier: O Jogo da Esperança, um jogo que virou oráculo. Vale a pena a leitura.

 

Texto publicado pela primeira vez em 28 de abril de 2017.