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Olheiras nas fotografias e autoimagem construída no tempo

Por toda minha vida sempre tive horror a tirar fotografias. As olheiras sempre me faziam sentir nada fotogênica, achava que saía péssima nas fotos, me escusava a tirar, fugia. Já lá pela altura dos trinta e tantos anos resolvi olhar as fotos do passado, e tirei do conjunto uma série delas onde estava somente eu, e fui me sentindo bem ao ver. Habituar o olhar, ir se auto educando para ver o que de belo andava por ali. 

Separei as fotos para fazer um painel, ou coisa assim, em casa, assumir essas leoninices.
Nunca o fiz.Esses dias, fazendo minhas arrumações de final de ano andei achando a tal seleção. Enquanto olhava tudo eu conversava com minha amiga Sara Nina. comecei a mostrar, contar o contexto das fotos, um amor do passado, o melhor amigo mais antigo de todos, o primeiro orgasmo. As viagens para Salvador, descoberta da liberdade, do pertencimento, da ancestralidade no axé.

Sara, sempre muito esperta, começou a refletir sobre o que ela deveria estar aprendendo ali naquele momento, me questionou se havia algo de que eu me arrependesse de não ter feito. Curiosamente me disse que tinha medo de se arrepender de não ter aprendido inglês. Dei risada e disse: sim, eu tinha esse medo de me arrepender de não ter aprendido inglês, por isso fui atrás deste saber, e graças a Deus fiz uma coisa muito certa. Rimos juntas.
Eu não me arrependo, não sou mulher disso. Vivi as coisas e sei que vivi como podia e como sabia, da melhor forma, para aquele momento. Sempre achei que minha vida melhorou, cada vez mais me senti melhor, como mulher sobretudo.
Então eu disse a ele que eu tinha sim, um grande arrependimento, o de não ter tido olhos para ver como eu era potente, bela, livre. De não ter visto como eu era bonita e desejável, de não ter essa dimensão, e ter me diminuído sempre e muito como mulher, como pessoa, quando era jovem e tinha viço. Complexos mil, crenças limitantes.

As pessoas hoje dizem que eu melhorei como vinho, que estou cada vez mais bonita. Isso é uma dádiva.
Mas isso revela também o quanto eu não me reconhecia, dentro de toda beleza, potência e força que eu tinha quando eu era jovem.
Agradeço profundamente ao feminismo, e a todos os feministxs que passaram pelo meu caminho, e que me fizeram mudar o meu olhar para a pessoa que eu sou, e poder me tornar em vinho, reconhecendo o lugar que hoje ocupo, como mulher, como profissional.
Se eu pudesse dar um presente de Natal, eu daria esse, às meninas, às jovens, às adolescentes, pré-adolescentes: Um olhar de amor de admiração, encantado com a beleza, respeitador do viço da juventude e das conquistas da maturidade. Mais do que tudo, um olhar de amor profundo, pelo que se é, com muito carinho. Sem ouvir as críticas, as diminuições, venham de onde venham. Olhe-se, com amor. Isso é muito curador, e preventivo.

Texto publicado pela primeira vez em 23 de dezembro de 2017.