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Sobre terapia e ayahuaska...

Eu chamo a ayahuaska de minha madrinha. Fecho os olhos e peço que ela me leve pelos caminhos melhores onde minha alma deve percorrer, a fim de entender certas situações difíceis, minhas ou das pessoas que procuram minha ajuda como terapeuta. Muitas vezes a resposta está em um lugar bem longe daquele em que começamos a perguntar, e isso é lindo e surpreendente, como a vida. e não é à toa que os povos nativos norte americanos fazem votos “por todas as nossas relações” Mitakue oiasim! Às vezes uma relação que está lá longe nos traz a chave para um problema próximo, vivido agora. Tudo entrelaçado.

Eu não acredito em um trabalho terapêutico que leva à dependência de quem está comigo, não pretendo, como dizia Guattari, ter exclusividade sobre o telefone vermelho de Krushev, que leva ao inconsciente de ninguém. Gosto muito de atender pessoas em situações limite - uma ruptura em um relacionamento importante, uma mudança de carreira, uma gravidez não esperada, a morte de um dos pais. Penso que essas situações muito difíceis nos levam a mudanças profundas e das quais não conseguimos escapar, elas nos empurram. Mas acho que ao passar por esse tempo de mudar, adquirimos recursos para continuar, com a ajuda de livros, de amigos, das medicinas da floresta, não é preciso ficar eternamente com um terapeuta, ser um terapeutizado profissional… Não é boa essa dependência.
Esses dias minha madrinha me mostrou e foi claro, como a maioria de nós, especialmente as pessoas que se deprimem, e as pessoas em processo de adição, responsabilizam os acontecimentos externos pelos seus estados emocionais, responsabilizam as “pessoas” de sua vida pelos seus estados de saúde mental, e não tomam para si a responsa sobre a própria vida. E, gente, quem fala é uma ex depressiva de carteirinha, que tem suas quase recaídas evitadas com muita batalha… Mas acho que esta é uma das maiores epidemias mentais, se não a maior, destes tempos: A culpa que sempre recai no outro: pai, mãe, parceiro, ex parceiro, vizinho, grupo, turma, um amigo que se foi. Tudo no entorno não somente nos toca - como é bom que seja e faz parte de “todas as nossas relações”, mas, o que não é nada bom, determina se vamos ou não estar bem emocionalmente. Penso que seja urgente e necessário ser protagonista emocional da própria vida. Isso é algo que sim, deveríamos ensinar aos filhos. E ah! Os filhos… Estar em contato com adultos que não se responsabilizam emocionalmente por si mesmos vai empurrando a epidemia para frente, a criança sem segurança de que o outro vai se cuidar perde o próprio referencial e fica à deriva, e adivinhe: vai também culpar alguém, vai também perder a responsabilidade sobre si. E não falo das mães, mas de todos os adultos que fazem esse contato com aquele ser, principalmente suas referencias emocionais maiores… Essa educação emocional de auto cuidado e responsabilidade: é urgente olharmos para isso, vivermos isso, ensinarmos isso! Mesmo sendo muito difícil! Salve as medicinas do rapé, da ayahuaska, do amor e da amizade, salve os filósofos da diferença, salve aqueles que nos ajudam a sermos loucos melhores!



TExto Publicado pela primeira vez em 8 de novembro de 2017.