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Primeira moça, segunda moça

A primeira moça saiu da sala, mandou a segunda entrar. 

A segunda se sentou no banquinho. Tinha ficado esperando durante o tempo da consulta da primeira, tinha medo, por isso era bom que a outra jogasse antes.

Segunda consulta:

Cartomante - Você tem alguém? Tem uma união no seu caminho. Um casamento.
Consulente - Mas será? Já tive depressão três anos por causa dele.
Cartomante - Hum. Verifica as cartas. Ele é casado? 
Consulente - Sim, era na época. Eu esperei durante seis anos ele se separar, e terminamos, da pior forma possível.
Cartomante - Porque? A mulher dele descobriu sobre vocês? 
Consulente - Não, ela descobriu outra história, que ele saiu com outra pessoa, uma colega minha do banco. E outras histórias. Ele saiu com essa outra mulher, disse para mim que era porque estava com raiva de mim. Depois disso foram mais doze anos vivendo assim. Dezoito anos juntos. Nos últimos dois eu tive uma depressão horrível, agora estou me recuperando. Não saia da cama. Fiquei um ano sem trabalhar. No segundo dia em que eu voltei ao serviço encontrei ele lá. Cartomante - É, mas está dando aqui, tem um casamento no seu caminho, tem uma aliança muito forte para você. Não sei se é ele, se não for… Talvez você esbarre até com a pessoa aqui na porta da minha casa, saindo daqui. 
As duas rimos. Tinha os olhos fundos, duas grandes saboneteiras. Magra, uma boca larga. Combalida pela depressão, mas via-se que estava dando os primeiros passos fora d´agua, depois de voltar à superfície. 
Consulente - Às vezes eu penso que seria melhor ficar com uma mulher…
Disse a ela que sim, que eu havia visto no jogo que ela tinha caminho para ficar com uma mulher. Consulente - Essa amiga minha que está lá fora, ela que tem me dado suporte em tudo, para eu voltar a trabalhar e não parar de novo, porque tem sido muito difícil encontrar com ele de novo. 

Quarenta minutos antes, a primeira consulta:

Cartomante - Seu casamento vai mal, você está em meio a uma turbulência amorosa, está doendo. 
Consulente - É, realmente  não sei o que vai ser, mas tenho medo de me separar, não sei se vai aparecer outra pessoa na minha vida, já tenho uma certa idade…
Cartomante - Quantos anos tu tens? 
Consulente - Trinta e oito. 
Cartomante - Hum… Olha as cartas em cima da mesa. - Muitos vão aparecer ainda. É, eu sei como é, eu te entendo. Mas vão, vão sim. Tem alguém no seu caminho. Junta as cartas, manda cortar, tira cinco delas. Os negócios dele vão mal? Do seu marido?
Consulente - Meio marido, meio ex. Sim. Ele é muito irresponsável, acho que isso acabou com o nosso relacionamento. 
Cartomante - É. Ele é meio enrolado. Tem um sócio? 
Consulente - Sim. 
Cartomante - Sim, esse sócio é complicado viu. Bate em uma das cotas com o indicador. - E outra, teve alguém que ficou devendo para ele e não pagou, ou algo assim, um negócio que não deu certo. Não foi tudo culpa dele. 
Consulente - Sim, teve.
A mulher suspira, indiferente, sem energia, na verdade não se importa com o motivo do fracasso financeiro do marido. Continua - Mas ele vai ficar bem? Porque ele é pai do meu filho, não quero mais ficar com ele. Na verdade o casamento já acabou, mas quero que ele fique bem. 
Cartomante, junta de novo, embaralha, manda cortar, tira um par - Sim… Tem uma viagem prevista para ele. 
Consulente - Tem… Ele tem viajado muito…
Cartomante - Vai ser bom, isso vai dar uma guinada na vida dele. 
Consulente - Ele diz que os negócios foram mal porque ele precisava do meu amor, eu digo que o amor acabou porque os negócios foram mal. 
Cartomante - Nem uma coisa nem outra… 
Consulente - É, na verdade eu errei desde o princípio, eu casei com ele porque eu queria uma família, não tinha outra opção… Mas eu quero saber se tem outra pessoa. Você disse aí que tem outra opção, tem como saber quem é?
Cartomante - Vou tentar ver. Repete o ciclo: junta, embaralha, manda cortar, tira duas.
Consulente - É que tem alguém, mas eu queria saber se não estou viajando na maionese. 
Cartomante - (Verifica as duas cartas) Olha, é só um flerte, mas se você mostrar interesse… 
Consulente - Então não tem nada né? 
Cartomante - Não, mas… Custa mostrar um interesse? Pode ser bom, para esse outro aí. A vida dele tá uma (merda) complicação. O casamento vai mal, está desgastado, pode ser um sopro de vida.
Consulente - Não sou muito de me jogar. 
Cartomante - Mas deveria aprender… Tira uma carta do monte. - Mas você não é muito de ficar sozinha.
Consulente - Não tive muitos namorados antes de me casar. Sou meio boba.
Cartomante - É gaúcha?
Consulente - Sou.
Cartomante, em tom de brincadeira - Vocês gaúchas são assim, muito faca na bota, só pensam em trabalho.  A consulente riu, meio dolorida. 
Consulente - É verdade. Esse que vem, será que ele é do trabalho? 
Cartomante - Mas se tu só trabalha… Vou olhar. Tira mais duas. - Eu acho que sim, pelo que eu vi aqui. É onde vocês trabalham mesmo, você e sua amiga. Saiu a âncora.
Consulente - Ah! Então tá, fico mais tranquila se vai aparecer alguém… 
Saíram do aparamento. A primeira mulher pagou os dois jogos. O dela, e o da amiga que tinha medo. Agradeceram. Foram embora juntas, sempre juntas.

TExto publicado pela primeira vez em 14 de novembro de 2017.