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Tornar-se o que sempre se foi

Quando eu tinha 15 anos, no interior de São Paulo, mal começando minha vida de anseios e desilusões amorosas fiz, uma vez, um tour obsessivo durante as férias, por umas quatro videntes. 
Durante os anos em que estudei no Colégio de Freiras me parecia hostil o ambiente católico. Fugia nas horas dos intervalos, ou aproveitava as aulas de Educação Física para conversar com as serventes, no corredor estreito e úmido onde as criadas das freiras faziam dormida, guardavam as coisas de limpeza, viam tv. O ambiente mofado guardava desde um bule velho até pedaços de tricot, entre garrafas de pinho sol e colchões esburacados, sob uma cama caprichosamente arrumadinha.
Com uma delas tinha um compromisso pontual. Ela já sabia que eu com certeza viria. E me fazia sempre um chazinho, gostava do papo com a menina que largava as colegas para jogar conversa fora sobre novelas, sobre chás, o tempo, os santos católicos, escondida no corredor escuro, longe dos olhos dos demais.
O ambiente das videntes que eu ia visitar na adolescência tinha para mim uma atmosfera muito semelhante. Misturava-se o escondido, a atividade não muito bem vista, marginalizada, com a visão daquelas mulheres, sempre prontas a um segredinho, à cumplicidade. Eu as achava tão diferentes de mim, tão parecidas com minha avó materna… Preta, pequenina, pobre, de gênio terrível, esquecida num canto do inventário familiar infantil. 
E o cenário se repetia: Por entre um quintal lateral apertadinho, se chegava numa casinha baixa, a pintura de cal misturada, em uma vila muito longe do centro (ou conjunto habitacional), em algum bairro avermelhado da periferia de Ribeirão Preto. Eu e uma amiga, pouco mais velha (e também com algum adiantamento nos seus beijos e namoros, que era o que a movia à procura de vidências) batíamos palmas à porta. O silêncio. Um pouco de constrangimento, e chegava afinal alguma senhora se arrastando, nos media e mandava entrar.
Com mais nitidez só me lembro de um endereço. Nele o que havia era, no portão, uma algazarra de crianças de várias idades, e uma mulher moça que veio atender, nos olhando de cima a baixo (a mim e à minha amiga). Ela nos anunciou, mandando ir para a cozinha “lá no fundo”. 
Sentada, perto da mesinha de fórmica azul com pés de aço, uma mulher preta, magrinha, os olhos de catarata. Via o futuro. Não olhava cartas. Não lembro se me olhou nas mãos, ou se só me pegou pelo braço e mirou, através da fumaça dos olhos brilhosos, já meio esverdeados. Vestida com seu “penhoir” de algodão levíssimo, daqueles que se comprava na feira-livre da rua. O saiote por debaixo, aparecendo. “Aqui Vó, a moça tá aqui.” Tocou meu braço, a outra mulher, a moça, me trouxe um banquinho, me botou do lado dela.
Duas coisas me disse só, que me lembro: Que eu não gostava de homem “pé rapado”, e que iria me casar com um fazendeiro. Fazendeiro, naquele contexto, uma frase pronta que saía dela, pareceu muito falsa, muito engraçada, que jeito ia eu, uma menina de São Paulo Capital, arrumar um fazendeiro. E veio junto com tantas outras frases prontas… Mas me disseram que a mulher era boa, acertava, a casa longe e o preço módico davam veracidade à consulta. Ficava catando entre as frases os acertos, ou pelo menos aquelas coisas que confirmassem em mim algo que eu soubesse, que me desse alento, que me trouxesse confiança. 
Talvez ela até tenha acertado em ambas. Até hoje olho para essas duas frases prontas, esquisitas, e encontro alguns acertos. É verdade que não gosto de gente simplória. Rico ou pobre, tem que parecer um pouco rei, e ser muito inteligente. Quanto ao fazendeiro… Bem, casei-me com um moço vindo de uma família agricultora, cuja renda vinha do trabalho no plantio de chuchu. Até que não foi tão longe assim… Mesmo sabendo que ela só queria me dizer que eu teria sorte… Sim, parecia-lhe sorte se casar com um fazendeiro (raça de gente detestável, segundo minha mãe). Mas ela desejava-me sorte, e queria que eu saísse feliz dali.
Por muito tempo era impensado para mim assumir a cartomancia como profissão. Como disse um grande amigo outro dia, Andre Pimentel: “astrólogo e tarólogo no armário”. Resquícios de uma mentalidade burguesa, racista e machista, depreciativa do conhecimento transmitido via oral, entre mulheres pobres, gente sem carreira, sem profissão. E eu nem me via nisso tudo, aqueles pontos cegos d´alma. Só me via como a moça criada para ser grande, grande isso, grande aquilo. Excelente professora, intelectual de primeira, formada na USP, diretora premiada. E o que me trouxe as relações maravilhosas que tenho em minha vida, e o retorno material que hoje tenho, no final, foi a atividade do fundo de quintal. 
Hoje, depois de um ano de inauguração do Espaço Almada, talvez a etapa anterior do verdadeiro projeto, a atividade do fundo do quintal vem para a frente do portão, abençoada por essa imagem e essa combinação de cartas do meu querido baralho cigano: Novo começo, novos rumos, confiança e entusiasmo em um novo projeto… O Cachorro e a Criança! Sei que o Espaço Almada cederá com alegria seu mundo físico terreno para a Casa da Cartomante, e aqui continuarão a se encontrar mães com bebês, haverá ainda encontros de mulheres, conversas curativas, fortalecimento para quem procura o jogo, chá, café, defumação, roda de rapé, reza para os santos, música, escrita, livros, literatura, conversas animadas sobre micro política, risadas imensas e muito, muito, amor.


Publicado pela primeira vez em 29 de setembro de 2017.